segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Assim não Vale!

E o valor de mercado da Vale derrete.

Roger Agnelli deve estar às gargalhadas. Em 2011, depois de enfrentar e derrotar quase uma década de tentativas do lulopetismo de meter as garras na empresa que fez crescer e se consolidar como a líder mundial na produção de minério de ferro, o executivo (considerado pela Universidade de Harvard como o quarto melhor CEO do planeta, no nível de Bill Gates e Steve Jobs) finalmente foi demitido por Dilma. Agnelli era osso duro de roer. Demitiu diretores indicados por petistas de alta patente como José Dirceu, e resistia à insensatez petista de meter a Vale em aventuras demagógicas tais como montar siderúrgicas em grotões eleitorais. Ganhou o ódio de Lula. E o governo, embora não tivesse mais o controle acionário da Vale, tinha e tem poder junto aos fundos de pensão e Bradesco, que controlam a empresa. Saiu Agnelli, entrou um burocrata mais dócil aos interesses do PT, Murilo Ferreira. A Vale meteu a cara na siderurgia - ou tentou. Algumas usinas saíram do papel. Outras ficaram pelo caminho, inviabilizadas pelo mercado recessivo e competição oriental - algo previsto por Agnelli.

E agora, eis os resultados, em meros quatro anos.

O petismo possui o Toque de Midas do avesso: tudo que ele toca, vira merda.   

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Xeque-mate.... SQN...



Xeque-mate.... só que não...

E a operação Lava-Jato segue seu curso, lentamente navegando pela lama, não da Samarco, mas sim da escória da corrupção institucional que tomou conta do Brasil a partir de 2003. Não, eu não estou dizendo que o PT inventou a corrupção! Ela já existe, creio, desde que o homo sapiens entregou um naco de antílope ao chefe do bando rival, em troca da permissão para morar em alguma caverna. A história é pródiga em exemplos de corrupção, envolvendo desde xerifes a papas. Com o poder, costuma vir uma quase irresistível vontade de usá-lo - em benefício próprio. Mas a corrupção, de modo geral, é um delito cometido de forma subreptícia, discretamente, entre corruptor e corrompido, exceções feitas aos casos da Máfia e cartéis da droga, que associam a vontade de ficar rico com o desejo de permanecer vivo, afinal, nesses casos, quem recusa acaba morto. No Brasil do PT, a corrupção ganhou status institucional, quase uma política de Estado, ou ao menos de Governo. O sistema se retroalimenta, num moto-contínuo no qual favores são concedidos e remunerados, e essa remuneração é usada, ao menos em parte, para pagar o custo da manutenção do corrompido no Poder, garantindo a continuidade do processo. A outra parte... bem, a outra parte serve para enriquecer essa gente, de uma forma inacreditável. Mansões, apartamentos triplex, sítios, fazendas, barcos, aviões, carros de luxo... a maioria, convenientemente disfarçada sob títulos de propriedade de terceiros, "amigos". E, em alguns casos, uma parte do butim tem como finalidade calar a boca de alguns que "sabem demais", bem como pagar os honorários astronômicos de bancas de advocacia renomadas, com fama de intimidar, por sua própria notoriedade, até juízes, promotores e policiais.

Nem preciso dizer quem paga a conta, não é?

No entanto, por uma feliz coincidência (feliz para o Brasil, que fique bem claro), um certo processo acabou caindo nas mãos de um juiz honesto, lá do Paraná. E esse juiz teve a suprema sorte de conviver com uma equipe do Ministério Público igualmente honesta e, sobretudo, meticulosa e eficiente. Junto com esses, uma Polícia Federal eficaz e empenhada. Era uma combinação poderosa. O fio da meada de uma Operação Lava-Jato que, como o nome diz, começou com uma simples investigação de lavagem de dinheiro de um obscuro doleiro, engrossou, ganhou substância e acabou arrebentando o dique que segurava oculto um mar de lama que tomou o Brasil de norte a sul. O povo a tudo assiste, num misto de incredulidade e esperança.

Hoje, mais um capítulo foi escrito. Como num conto de terror de Stephen King, o capítulo não é estanque: possui ramificações, tentáculos que conectam essa parte da história com outras, ainda mais escabrosas.

Com a delação do ex-diretor internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, fecha-se um capítulo do escândalo do Petrolão chamado "Caso Schahin". Todas as pontas soltas do caso foram conectadas, os depoimentos de todos os envolvidos são consistentes e coerentes entre si. Vejamos qual foi a trama, quem foram seus protagonistas, e o que eles disseram em depoimento. As conclusões são óbvias.

Em 2006 o PT buscou um financiamento junto ao Banco Schahin, o braço financeiro do grupo de mesmo nome, que, coincidência ou não, possui interesses também na área petrolífera. O partido precisava de 12 milhões de reais. Segundo depoimentos, metade desse dinheiro era destinado a pagar uma chantagem de um empresário de transportes de Santo André (SP), que ameaçava envolver Lula e Gilberto Carvalho no assassinato do prefeito Celso Daniel (PT). Note-se que Celso Daniel estava disposto a revelar um vultoso esquema de achaque do PT contra empresários de transporte coletivo na cidade. O Banco Schahin emprestou o valor solicitado, mas não diretamente: fez o empréstimo ao "melhor amigo" do então presidente Lula, o pecuarista José Carlos Bumlai. Que repassou os valores ao PT, que por sua vez passou ao empresário-chantagista.
Tudo teria ficado por isso mesmo, mas ocorre que Bumlai, obviamente, não pagou a dívida (ele chegou a alegar que pagou com embriões de gado, uma desculpa tão esfarrapada que ele mesmo a abandonou posteriormente). Em 2009, a dívida já estava em cerca de 60 milhões de reais. E o grupo Schahin queria receber, lógico.

E então surgiu a oportunidade. O Brasil entrava na euforia do pré-sal, a perspectiva de um futuro regado a petrodólares. A Petrobras estava numa daquelas fases que os fornecedores chamam de "compradora", com planos de investimento superiores ao PIB de muitos países do terceiro mundo. Era pura festa. A Schahin mexeu os pauzinhos: acionou um lobista, Fernando Baiano, para conseguir um naco desse pote de ouro. A coisa acabou nas mãos de um tal Nestor Cerveró, então diretor internacional da Petrobras. Indicado pelo PT, lógico. Cerveró não se fez de rogado: assinou um arrendamento de um navio-sonda arranjado pela Schahin, o Victoria 10.000. O valor do contrato? US$ 1,6 bilhão. Tudo sem licitação, claro.

O Grupo Schahin ficou tão feliz com o contrato, que "perdoou" a dívida do Bumlai, digo, PT. E Lula ficou tão feliz com a atuação de Cerveró que o indicou para uma diretoria na Petrobras Distribuidora. Isso em 2008, quando a Diretoria Internacional da Petrobras já se encontrava sob fogo cerrado de uma CPI. A permanência de Cerveró no cargo era insustentável. Saiu Cerveró (não sem antes colaborar com a desastrada compra da refinaria de Pasadena, que rendeu mais alguns milhões aos corruptos), entrou Jorge Luiz Zelada, que, como se sabe agora, prosseguiu com as maracutaias existentes e hoje virou  delator. E Cerveró? Foi para a Petrobras Distribuidora, onde em 2011 foi empossado como Diretor Financeiro por... Dilma Rousseff. Só foi demitido em 2014, às vésperas de ser preso por Sergio Moro.

Quem afirma essas coisas todas?

O Banco Schahin confirma que emprestou o finheiro a Bumlai, para repasse ao PT. Confirma que jamais recebeu o dinheiro de volta, e que perdoou a dívida quando Cerveró, por ingerência de Bumlai e Fernando Baiano, contratou o navio-sonda da Schahin.

Bumlai confirma que tomou o empréstimo a pedido do PT, e que parte do valor foi remetido ao partido em Santo André.

Fernando Baiano confirma que atuou na intermediação da contratação do navio-sonda, bem como na transferência de Cerveró para a Petrobras Distribuidora.

Cerveró acaba de confirmar que atuou a mando do PT, e que Lula ficou tão feliz com o desfecho do caso que o indicou ao novo posto.

Ou seja, todos os implicados no caso contam a mesmíssima história. E nessa história, o nome recorrente como beneficiário final da tramóia  é... Luiz Inácio Lula da Silva. Que, como já afirmou Yousseff na sua delação, "sempre soube de tudo". Agora, os depoimentos vão mais longe: não só sabia, como foi parte atuante na trama.

Em face disso tudo, nada mais natural que houvesse um pedido de investigação ou mesmo indiciamento do ex-presidente. Afinal, o teor dos depoimentos é contundente! Não um nem dois: TODOS os depoentes são unânimes em apontar Lula como parte do esquema, feito para, entre outras coisas, tirar um chantagista do seu encalço.

Mas não há sequer um pedido de investigação. Nada.

Há algo de muito estranho nisso.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Olá, amigos!

A pedidos, vou voltar a escrever nesse espaço.

Me aguardem!

Abraços

Roland

segunda-feira, 3 de março de 2014

Pelourinho sim, Sinhozinho!

       Um dos aspectos mais interessantes da democracia, especialmente quando ela permeia a linha editorial dos jornais, é a diversidade de opiniões. Num jornal com sólida convicção democrática, mesmo que exista certo viés para um lado ou outro, sempre haverá espaço para opiniões divergentes, mesmo as eivadas das mais rematadas e óbvias idiotices. Afinal de contas, o próprio conceito de “idiotice” é subjetivo, não é? Essa é a maldição dos veículos da esquerda: por ser, na sua essência, antagônico ao próprio conceito de liberdade tão própria da democracia, o jornalismo de esquerda acaba se tornando, antes de mais nada, absurdamente monocórdico e chato. Sempre mais do mesmo, por assim dizer. Os conceitos que a esquerda traz em seu bojo são tão insustentáveis (embora sedutores para os idealistas do jeitão de ser “Imagine all the people”), que só mesmo às custas da fé cega, embalada por mantras e mentiras repetidas à exaustão, se mantém como opção viável na mente de alguns. Eis o motivo pelo qual a leitura de revistas e blogs da esquerda acaba sendo enfadonha, ainda mais num período como o atual, no qual eles são obrigados a defender o indefensável - o governo petista, tão pródigo em produzir fracassos que são vendidos ao povaréu como se fossem vitórias.  É sempre o mesmo blá-blá-blá, acerca das glórias do governo proto-bolivariano que se instalou no país a partir de 2003. Qualquer notícia que possa abalar essa crença cega é automaticamente queimada na pira da “revolução cultural” como sendo uma “calúnia” urdida pelos “reacionários”. E, em consequência, não deve ser nem mesmo lida. É fácil constatar isso na prática: os esquerdopatas de plantão batem no peito e afirmam que “jamais” leem a Veja (embora talvez o façam escondidos...), como se o simples ato de ler algo que não se alinhe ao seu modo peculiar de ver o mundo seja suficiente para abalar-lhes as convicções. A esquerda e os vampiros temem a luz. Enquanto isso, nós, os “reacionários” nos divertimos muito mais: não nos furtamos a ler os Brasil247 e CartaCapital da vida, nem que seja para desopilarmos o fígado com tanta bobagem.
         Dentro desse espírito, embora seja divertido, nem é preciso recorrer aos blogs sujos, financiados com recursos públicos, para ler besteiras de grosso calibre. Veículos como O Globo, o Estadão e a Folha de São Paulo, tidas como esteios da “grande mídia empresarial” e, portanto, “de direita”, pela esquerda hidrófoba, não se furtam a publicar opiniões e artigos que mais parecem "press-release" do PT. Justamente por ser livre, a democracia aceita até mesmo opiniões que a ferem na própria essência. É a sua natureza. Algumas publicações são apenas proselitismo petista. Outras são obras-primas da tolice. Algumas combinam as duas coisas. 

          Há dias, o bacharel em filosofia e articulista da Folha de São Paulo, Hélio Schwartsman, publicou uma opinião no jornal. Permito-me replicá-la aqui, na íntegra. Comento a seguir.
“Médicos no pelourinho?”
“Os cubanos que participam do Mais Médicos estão num regime de trabalho análogo à escravidão? Meu amigo Ives Gandra da Silva Martins escreveu um interessante artigo tentando mostrar que sim. Destrinchou o contrato que rege a atuação desses profissionais no Brasil e foi apontando as muitas ilegalidades em que incorre.
Do ponto de vista jurídico, Ives tem razão. Se o Ministério Público do Trabalho quiser, não terá dificuldades para questionar o Mais Médicos. Penso, porém, que juízos valorativos acerca do programa devem ser feitos com base em considerações éticas e não jurídicas. Afinal, se há algo perto de um consenso acerca da legislação trabalhista brasileira é o de que ela é ruim, amarrando demais as relações entre patrões e empregados.
E, no plano da ética, a discussão é mais complicada. Sei que o Ives é fã de matrizes deontológicas, nas quais o certo e o errado encontram definições naturais ou positivas, mas eu tendo a abraçar modelos mais consequencialistas, nos quais as ações são julgadas primordialmente pelos resultados que produzem.
Sob essa perspectiva, mais importante do que perguntar se o cubano está sendo tratado com justiça (um conceito irredutivelmente metafísico) é determinar se aqui ele está melhor ou pior do que em Cuba. Se ganha mais aqui e veio de livre e espontânea vontade (tão livre quanto possível numa ditadura como a cubana), não caberiam objeções trabalhistas à empreitada. O fato de haver médicos de outras nacionalidades ganhando mais do que ele não anula o aprimoramento de sua situação. No mais, se nosso cubano estiver pensando em desertar, tem mais chances de fazê-lo estando no Brasil do que na ilha.
É claro que o programa permanece vulnerável a outras críticas. Ele é caro, por exemplo. Acho que conseguiríamos efeito sanitário semelhante contratando enfermeiros. O problema é que o marketing político exige que tenham o título de médicos.”

         Metafísica à parte, raras vezes li um texto tão estúpido, com o perdão do articulista. Em primeiro lugar, Schwartsman reconhece a indecência legal e jurídica do regime de trabalho imposto aos cubanos que foram alugados ao Brasil pelos irmãos Castro. Cita até quem certamente tem mais estofo jurídico para falar do assunto, Ives Gandra Martins, que já expressou sua opinião acerca das flagrantes ilegalidades do sistema. Como argumentar com Ives Gandra, nessa seara? Difícil. O assunto poderia ter morrido aí. Mas qual o quê... o “filósofo” escorrega feito traíra ensaboada, e tenta tirar a questão toda do campo jurídico, para lançá-la no campo minado da “ética”, sua suposta área de “expertise”, porquanto filosófica e “metafísica”. E a ética, pelo menos para alguns, é personalista e feita sob medida para os atos de cada um, não é?  Qualquer interno da Papuda poderá dar uma aula magna sobre seu conceito muito particular de ética. Num país cuja Suprema Corte decide que um grupo de criminosos que deliberadamente e de comum acordo decidiu infringir a Lei é tudo MENOS quadrilha, a ética é um tanto quanto elástica.

         Não é novidade que, com alguma frequência, o “juridicamente correto” se distancia, em maior ou menor grau, do “eticamente correto”. Em outras palavras, o legal nem sempre é o certo, e vice-versa. Admitamos esse fato, muito embora suscetível de interpretações ao gosto do freguês. Para os apologistas da descriminação das drogas, a Lei é que está errada – mesmo que a esmagadora maioria da população a endosse. Para o motorista que dirige alcoolizado, a Lei Seca é um absurdo, porque, afinal, ele “só bebeu um pouquinho, e dirige até melhor assim”. Para o empregador que sofre debaixo de uma legislação trabalhista arcaica e paternalista, o “correto” seria a flexibilização das regras legais. No tocante à lei trabalhista, eu até concordo, vejam só! Só que eu NUNCA tentaria invocar esse conceito subjetivo de “certo e errado” para minha defesa num processo trabalhista, por exemplo. O conceito que prevalece, e com boa razão, é o “law of the land”. Como dizem lá em Minas, “o tratado não é caro”. Quem vive aqui, tem que agir segundo as Leis, goste ou não delas. Se há uma legislação que protege o trabalhador, só resta ao empregador cumpri-la, sendo ele privado ou público. O resto é conversa fiada, conversa pra boi dormir. Supõe-se que o legislador, ao promover a Lei, o tenha feito de boa-fé, e no melhor interesse de todos. Não está bom assim? Mude-se a Lei. O que não pode é se lixar para ela, calçando essa decisão num conceito metafísico e muito pessoal de "certo" e "errado". Esse caminho deságua na barbárie, onde cada um faz o que lhe der na veneta..

         Bem, mas digamos, hipoteticamente, que seja admissível desprezar o “jurídico” em favor do “ético”, nesse caso em particular. Aí é que o filósofo escorrega na casca de banana de forma irremediável. Não é de se estranhar, porque se quisermos defender o indefensável, só mesmo apelando para a mistificação rasteira. 

           Primeiro, ele afirma pender para o “consequencialismo” como norma ética. E reforça: “(...) nos quais as ações são julgadas primordialmente pelos resultados que produzem.”  Como é que é? Em pleno século XXI, ainda há quem defenda, abertamente, que os fins justificam os meios? Será que o articulista crê mesmo nisso, ou só usou esse absurdo para tentar advogar pela causa da semi-escravidão a que são submetidos os profissionais trazidos de Cuba? Dentro da ótica de “fins que justificam os meios” ou melhor, "consequencialismo”, tudo é possível! Inclinações éticas à parte, é um consenso quase universal do mundo atual que NÃO – os fins definitivamente NÃO justificam os meios! De boas intenções, o inferno está cheio.

         Em seguida, vem a pérola, a cereja do bolo de sandices. Vamos a ela. Segundo o articulista, “(...) Sob essa perspectiva, mais importante do que perguntar se o cubano está sendo tratado com justiça (um conceito irredutivelmente metafísico) é determinar se aqui ele está melhor ou pior do que em Cuba. Se ganha mais aqui e veio de livre e espontânea vontade (tão livre quanto possível numa ditadura como a cubana), não caberiam objeções trabalhistas à empreitada”

           Epa! Epa! Epa!  É hora de um pequeno exercício, nessa linha de raciocínio, ora pois. No lugar de governo empregador de médicos, entra Dona Maria, dona de casa. Ela conversa com sua vizinha, Dona Maroca, enquanto rega o jardim:

“Pois é... sabe a Dolores? Pediu as contas, não quis trabalhar mais pra mim. Fiquei mais de uma semana sem empregada!”
“Que coisa, né... essas empregadas de hoje em dia não querem nada com nada, querem ganhar uma fortuna e trabalhar pouco! Como você se arrumou, amiga?”
“Ah... foi fácil: uma agência lá do Piauí me arrumou uma empregada de lá. A Raimunda. Paguei a passagem dela, ela veio, feliz da vida! Está morando naquele quartinho onde eu tinha a dispensa. Excelente, trabalha direitinho, faz o que eu mando. Não é cozinheira de mão cheia, claro, mas faz o trivial.”
“E quanto você paga a ela?”
“Nada!”
“Como assim, “nada”? Ela não ganha salário?”
“Ah... eu dou uns trocados pra ela, pra ela comprar sabonete, essas coisas, de vez em quando...”
“Mas ela aceita?”
“Claro! Imagine... morava num cafundó do Judas, uma seca miserável, não tinha nem o que comer. Lá em casa ela tem casa e comida, está MUITO melhor do que antes! Feliz da vida!!!”

        Como será que o articulista da Folha vê essa relação de emprego, dentro de sua visão “ética”? É aceitável? Afinal, a Raimunda está “melhor” do que no sertão do Piauí, não é? Sr. Schwartsman, esse é o fundamento básico daquilo que consideramos “escravidão”. NADA a justifica, NADA a ameniza, NADA a redime. Nem mesmo as mistificações filosóficas extraídas sabe-se lá de onde. Por mais petista que seja o interlocutor. Ou cego. Ou idiota.  

       E, por favor, afirmar que uma das vantagens da escravidão em outro país é a facilidade presumível de fugir dela, é intelectualmente delinquente e asqueroso. O texto começa mal, e termina pior. A ombudsman da Folha, evidentemente, não vai falar nada. Quem já leu as críticas dela entenderá o motivo.




domingo, 24 de novembro de 2013

O mito da "grande mídia"

Uma das bandeiras do petismo desmiolado é a falácia amplamente divulgada de que a chamada "grande mídia" (leia-se, Folha, Estadão, Globo e Veja) estaria cooptada pelo reacionarismo da direita, só publicando matérias com viés anti-PT, e protegendo o partido "de direita", que os petistas e seus pau-mandados julgam ser o PSDB. Em que pese o erro crasso quanto ao posicionamento ideológico destes partidos (nada mais de direita do que um PT caudilhesco, ditatorial e amigo íntimo dos setores mais conservadores do empresariado da FIESP e FEBRABAN), a acusação até ganha adeptos entre alguns que nem se dão ao trabalho de LER o que se publica nesses veículos. De fato, a Veja possui viés à direita. Não é preciso ser um oráculo para perceber isso. E daí? Por mais que se tente demonizar a direita, o fato inequívoco é que a direita respeita valores caros a quem preza a liberdade, como a livre iniciativa, o respeito às leis, a ingerência mínima do Estado perdulario e corrupto na vida do cidadão. Quem acompanha a Veja desde sua primeira edição sabe muito bem que a revista é algoz de governos tanto à esquerda quanto à direita. Durante o governo FHC, a revista publicou inúmeras reportagens denunciando irregularidades no governo. Naquela época, a Veja era brandida em plenário, por políticos petistas, como "prova" de desvios na esfera do PSDB. Mas aí o cenário mudou, o PT ganhou o poder. A Veja seguiu na mesma linha editorial: investigando e denunciando. Só que com muito mais material disponível para trabalhar, na medida em que o PT, uma vez no poder, esmerou-se na arte de produzir escândalos e falcatruas. Aí a revista passou a ser a "vilã". Juntamente com outros veículos, notadamente a Folha de São Paulo e O Globo. Esse seria o triunvirato da "imprensa maligna", contra o qual o PT sonha em instituir a censura no Brasil, na forma de "controle social da mídia".

Mas... espera aí. Será que Folha e Globo são tão anti-PT assim? Os veículos das Organizações Globo, há muito tempo incorporaram um viés tão descaradamente pró-PT que chega a assustar. Não me arrisco a afirmar que o apoio do banco oficial BNDES ao grupo foi fator decisivo nessa mudança de maré. Mas que foi estranho, isso foi. Quanto à Folha... não há uma única edição em que não aparece algo da lavra de um petista dos mais empedernidos. Se, por um lado, a Folha colocou o Reinaldo Azevedo como colunista, por outro, segue com umas figuras que chegam a ser caricatas nas suas diatribes de petismo exacerbado. Então, que "grande mídia" é essa, que publica artigos como o do ex-porta-voz do governo Lula, André Singer, um festival de delinquência intelectual sem tamanho, e que saiu no dia 22 de novembro? 

Vou transcrever o artigo, e comentar. 

"Numa atitude que vem se tornando recorrente, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, mais uma vez usou as prerrogativas de que dispõe para conturbar o delicado ambiente que envolve a ação penal 470. A maneira pela qual decidiu o início da execução das sentenças parece obedecer mais a fins de publicidade do que a necessidades objetivas."

Bem, aí é mero exercício do direito de ter opinião. O Singer acha que Barbosa tem como meta primordial na vida "conturbar" a AP 470. Eu vejo por uma ótica diferente. Barbosa quer é encerrar logo essa Ação. No meu entender, uma ação criminal se encerra quando lavra-se a sentença, publica-se, considera transitado em julgado e executa-se. Só faltava executar. Foi o que fez o Ministro Joaquim Barbosa, dentro de suas prerrogativas - e obrigações, diga-se de passagem. 

"Não se questiona aqui que condenações transitadas em julgado fossem executadas, ainda que diversos aspectos do processo permaneçam duvidosos. Mas o "modus faciendi" altera bastante o resultado final, dando conotação de parcialidade aos atos do ministro. Em lugar de amenizar os aspectos espetaculares das medidas, como seria de esperar caso houvesse preocupação profunda com o espírito da lei, ele os potencializou, em uma demonstração de que o janismo pode reaparecer onde menos se espera." 

Ora, se "não se questiona", então, o que vem a ser o artigo do Singer? Em minha visão, ali se "questiona", e muito. A começar pela frase ignóbil: "... ainda que diversos aspectos do processo permaneçam duvidosos". Epa! "duvidosos" coisíssima nenhuma, Singer! As condenações são finais. Não há mais recurso cabível. Transitaram em julgado, como se diz no jargão forense. "Duvidoso" uma ova! No instante em que o jornalista e petista coloca a palavra "duvidoso" no seu texto, ele contradiz frontalmente o enunciado no começo de seu próprio texto! Questiona o inquestionável! Em seguida, ele segue na diatribe, com uma frase que não quer dizer coisa com coisa: "Em lugar de amenizar os aspectos ...". Ah, caro jornalista, me poupe, vai! Ministro do STF não tem que "amenizar" coisa nenhuma! Tem que fazer cumprir a Lei! Pelo visto, Singer endossa a opinião do seu chefe Lula, ao se referir à investigação conduzida pela PF no tocante a José Sarney: "Ele não é uma pessoa qualquer...". Criminoso comum, daquele que te assalta na esquina com o trezoitão na mão, tem que ter todo o rigor da Lei, vai preso sem dó, seja feriado, Natal ou Carnaval, mas político petista tem que ser agraciado com "amenização"?? 

"A entrevista de Marco Aurélio Mello, colega de tribunal, ao jornalista Josias de Souza, não deixa dúvida a respeito. Em primeiro lugar, não havia nenhuma necessidade de açodamento, disse Mello, em relação à execução das sentenças. Acrescente-se que, depois de uma sessão confusa na quarta, 13 de novembro, Barbosa ainda precisava explicar, no dia seguinte, ao plenário, qual era a situação de cada um dos condenados."

Um subterfúgio tacanho. O jornalista não se atreve a dizer que "não havia pressa" na execução das sentenças. Isso pega mal, não é? Afinal de contas, o que o Brasil precisa não é de "lerdeza" nos atos do judiciário, mas justamente o contrário. Aí busca-se a opinião de um membro do Tribunal, para dar substância ao queixume. "Açodamento", Singer? Essa gente deveria estar presa preventivamente. O processo se arrasta desde 2007! Interferiram de forma grotesca no andamento do processo. Um tem até blog para achincalhar o STF. Fossem "presos comuns", estariam presos desde a aceitação da denúncia pelo MPF. Demorou demais, isso sim. Sentença lavrada, é expedir os mandados de prisão e recolher à cadeia. Simples assim.

"Não só não o fez, como, para surpresa geral --o que, aliás, é parte da "síndrome Quadros" que o atinge--, resolveu utilizar um feriado extenso, em que não há notícias para disputar o espaço noticioso nem mobilização para contestar o decidido, e colocar em presídio de segurança de Brasília um trio de altos ex-dirigentes do PT. O fato de ser a data da comemoração da República completa o simbolismo ideal para um possível futuro candidato a chefe do Executivo."

Chega a ser asqueroso! "Mobilização para contestar o decidido"??? Que diabos é isso? Black Blocs nas ruas, pedindo a libertação de Zé Dirceu? Ação judicial não caberia, nem durante o feriado, nem depois. Tanto que não houve. E pra dizer a verdade. nem mobilização alguma, excetuando-se aquela empreendida por blogs sujos financiados com dinheiro público. Ninguém fez passeata pelo "trio de ex-dirigentes do PT". E depois, o Singer tenta imputar a Joaquim Barbosa uma candidatura presidencial inexistente. Alega, sem pudor algum, que o Presidente do STF quer mesmo é a Presidência da República, e que já comete "ilegalidades" para obtê-la! Daqui a um ano, ou mesmo cinco, Joaquim Barbosa seguirá tranquilamente na sua função vitalícia no STF, não sairá candidato coisíssima nenhuma, e onde estará o Singer para assumir que falou besteira?

"Em segundo lugar, afirma Marco Aurélio, Barbosa acabou por produzir uma desnecessária prisão provisória em regime fechado para cidadãos que têm direito ao semiaberto nos lugares em que residem. Caso os devidos ritos fossem cumpridos com calma, teria havido situação bem diferente, com os acusados livres ao menos durante o dia. Assim, além de ser ilegal a reclusão a que estão submetidos José Dirceu e Delúbio Soares, foi ameaçada gratuitamente a integridade de José Genoino, cuja frágil situação de saúde é de todos conhecida."

Quanta bobagem se escreve numa folha de papel, não? Singer crê que o regime semiaberto é aquele no qual o cidadão sai pela manhã da cadeia, dá um tchauzinho, vai cuidar da vida e volta à noite. Ele também acha que isso é automático, uma espécie de direito pétreo desde o primeiro instante. Não é, como qualquer estagiário de direito bem sabe. O regime semiaberto depende de uma série de fatores para ser concedido e implementado. O preso entra no sistema carcerário, e aí, cumpridas as exigências, obtém o regime semiaberto. Singer segue na sua filosofia tosca, dizendo que a prisão dos três petistas-mor é ilegal. Ora, se é ilegal, fica simples: qualquer Ministro do STF pode conceder um habeas-corpus, direito pétreo da Constituição, revogando o ato "ilegal" do Ministro Joaquim Barbosa. Não se iludam: se nenhum dos Ministros o fez, é porque não podem. Não podem porque sabem muito bem que as prisões são perfeitamente legais. E, francamente, usar o estado de saúde de José Genoíno como alavancagem para a inoperância da justiça, é de amargar. Ninguém teve a mesma disposição para aliviar a barra de centenas, milhares talvez, de criminosos hipertensos mofando nos presídios brasileiros, não é? Só o coitadinho do José Genoíno teria esse privilégio? Por que?

"A concessão de tratamento em hospital ou domicílio a Genoino, anteontem, começou a reparar a série de abusos praticados no aparente intuito de causar sensação. Passada a fervura midiática e com a aparição de vozes divergentes em cena, espera-se que os demais atropelos também sejam corrigidos. Fica, no entanto, a impressão de que há um incendiário no comando, o que lança dúvidas sobre a condução que impôs a todo processo anterior."

Por fim, o jornalista tenta "redimir" o STF, que teria acatado o raciocínio lógico de permitir que o José Genoíno recebesse tratamento médico num hospital. De forma conveniente, ocultou o fato de que quem concedeu esse "benefício" foi precisamente o Joaquim Barbosa. Não porque se rendesse às pressões, mas por uma razão bem mais simples: ele recebeu um laudo médico oficial que recomendava essa ação. Aí o Singer faz aquilo que se esperava dele, como bom petista: pegou carona no José Genoíno, e pediu a libertação dos demais criminosos do seu partido. E, numa pérola final, volta a atacar o processo todo. É asqueroso.

Duas considerações adicionais se fazem importantes aqui. Primeiro, não é de se estranhar a postura aguerrida do PT e de seus verdugos a soldo, na defesa de José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoíno, os três mosqueteiros (ou patetas, para muitos) do petismo. A grita é ensurdecedora! Mas... e os outros? E o Marcos Valério? A Kátia Rabello? Ninguém vai pedir a liberdade deles? Ninguém aí vai dizer que as penas deles foram severas demais (eu pessoalmente acho que foram, se comparada com a dos mandantes do esquema criminoso)? Ninguém aí foi ver se Marcos Valério bebia água de torneira? Quanta injustiça! Quanta ingratidão!  Segundo, existe uma forma de "resolver" essa questão de uma forma definitiva. Basta que a presidente Dilma Rousseff saque de sua caneta presidencial, e conceda indulto a José Genoíno. A Lei é clara: O decreto em vigor prevê perdão a presos que exijam cuidados especiais por questão de saúde. Por que ela não o faz? Não sei... mas desconfio que embora seja inepta e limitada intelectualmente, a Dilma não é boba. E não vai comprar uma briga com a vontade popular a um ano das eleições. E o povo, caso alguns não saibam, quer mesmo é que a quadrilha do Mensalão fique presa. Por muito tempo, se possível.





sábado, 22 de dezembro de 2012

Moral e Cívica


Vocês se lembram das aulas de EMC? Educação Moral e Cívica? Bem, eu imagino que somente os mais velhos se lembrarão disso. E no Brasil, claro. Não sei se existe um paralelo em outros países, mas desconfio que sim. Para quem desconhece do que se trata, eram aulas versando sobre civismo, com ênfase em aspectos éticos. Aliás, a própria ética era dissecada. Havia, na escola onde eu estudava, uma outra matéria que tratava de política, a OSPB (Organização Social e Política Brasileira), que, a rigor, era uma imposição do Ministério da Educação às escolas, em tempos de regime militar. 

Nunca tive paciência para nenhuma das duas matérias. A questão política era algo intangível para um garoto de 14 anos, muito mais interessado em outras coisas mais próprias de sua idade do que se a Revolução de 64 havia sido boa ou não. Eu sabia que meu pai era um anticomunista ferrenho, e isso me bastava. Se ele era contra as idéias de Marx, eu também era, e pronto. Já no tocante ao civismo e ética, nada daquilo que era ensinado nas aulas me era novidade. Civismo? Eu morei durante boa parte da infância, numa pacata cidadezinha da Pensilvânia, e na escola o civismo era um dos pilares do ensino. O amor à pátria, o respeito às leis, a Regra de Ouro da ética ("Não faça aos outros aquilo que não admites que façam contigo"), eram tão corriqueiras quanto o jogo de baseball na hora do recreio. E quanto aos outros aspectos de respeito ao próximo e ojeriza à mentira, o cinto do meu pai, de couro grosso e fivela dupla, valia por mil aulas. Ainda assim, eu tirava boas notas em ambas as matérias, consideradas "fáceis" - o que não era o caso de Matemática ou Francês, onde eu me arrastava de uma série a outra.

Creio que não existe mais Educação Moral e Cívica nas escolas. Talvez tenha se tornado uma matéria politicamente incorreta, nesses tempos em que a "nova educação" prescinde de ensinar o português correto e adota a esculhambação gramatical como aceitável, ajudando a formar legiões de ignorantes e iletrados que servem à perfeição para votar em outros iletrados e ignorantes. Mas faz falta, se querem minha opinião. Talvez, se ensinassem um pouco de ética básica na escola, não precisaríamos de tantas penitenciárias. Talvez esses estudantes, quando crescessem, e resolvessem seguir pelo caminho da política, pensassem mais no povo que os elege, do que no seu poder e fortuna pessoal. Quem sabe?

E já que atrevo-me a dar conselhos educacionais (ainda estamos num país livre, espero!), vou dar mais um. Não creio que o Ministério da Educação, em tempos de Haddad e Mercadante, vá aceitar minha sugestão, mas... isso não lhe tira o mérito, muito antes pelo contrário. Retornem com a Moral e Cívica! Ensinem ética na escola! 

E para contribuir ainda mais com a questão, anexo um vídeo que achei por aí, que pode servir de "aula magna" reintroduzindo a velha e boa MORAL e CÍVICA nas escolas brasileiras. Certamente será uma aula controversa, vai gerar discussões inflamadas, como é da natureza de todo bom assunto.

Quem ministra essa aula é um professor de ilibada reputação, um jurista cuja história é parte da história do Brasil, do lado BOM do Brasil. Cujas credenciais são sólidas, em defesa da cidadania, dos direitos humanos e da moralidade pública. Advogado formado pela USP em 1947, jurista, ativista de direitos humanos. Um homem de esquerda. Não dessa esquerda de araque que grassa na América Latina nos nosso dias, mas de uma esquerda cuja preocupação maior era a diminuição da desigualdade entre as pessoas. Essa esquerda que não existe mais, seduzida que foi pelos charutos Havana e uísque 12 anos tão próprios do poder. Sobrou nas almas e mentes de poucos, e resiste bravamente na mente ainda afiada desse senhor de 90 anos. Ele lutou por isso. No auge da ditadura, enfrentou e venceu o Esquadrão da Morte, e nem mesmo o mais feroz dos generais encontrou nele uma falha moral que lhe permitisse cassar-lhe os direitos ou levá-lo a um dos porões da repressão. Fez carreira política, sempre dentro do PT. Deixou o partido em 2005, desiludido com os rumos que o partido e seus donos seguiram após se apossarem do poder.

Peço desculpas antecipadamente por algumas inserções no vídeo, a meu ver desnecessárias e que na verdade tiram o foco do mais importante: as palavras de um homem honesto, de rara inteligência, e sua desilusão frente ao que se transformou um ideal depois de vislumbrar a chave do cofre. O video não e de minha lavra - eu teria mantido apenas a entrevista. Sejam pacientes, portanto, o vídeo é um tanto longo.

Com vocês, o professor Hélio Bicudo.




sábado, 1 de dezembro de 2012

Teúda e manteúda




"Deite, que hoje vou lhe usar"
Coronel Jesuíno (José Wilker) para Sinhazinha, na minissérie "Gabriela", da TV Globo



Eu costumo acordar cedo. Pela seis da manhã, eu já estou fora da cama. A meia-idade tem dessas coisas, a gente tem sono só na hora errada. Aos sábados não é diferente. E hoje segui o costume. Levanto às seis, banheiro para as atividades inerentes ao local, vou à cozinha, ponho um café-com-leite no microondas, espero, pego a xícara e rumo ao escritório, onde mora a minha janela para o mundo, um notebook ligado numa conexão sonolenta com a internet. Ligo, espero carregar, clico no ícone da Veja On-Line, para ver as novidades. Nada de muito interessante, Israel vai metendo os pés pelas mãos na Cisjordânia (preciso escrever sobre isso mais tarde, há dias escrevi um post defendendo Israel do jogo sujo da mídia, mas essa de permitir a expansão dos assentamentos em represália à decisão da ONU de reconhecer a Palestina com Estado Observador é, para dizer o mínimo, um tremendo tiro no pé, parece até coisa de petista!), mais uns rolos da tal Rosemary, enfim, mais do mesmo. Vou à coluna do Reinaldo Azevedo, sempre um prazer de ler. Hummm... Hein?  Como é?  Deparo-me com o seguinte texto:

Jornal decide contar ao leitor o que os jornalistas e o governo sabiam há muito: Lula e Rosemary, no centro do novo escândalo, eram amantes desde 1993


Um homem público ter uma amante é ou não assunto relevante? Nos EUA, basta para liquidar uma carreira política, como estamos cansados de saber. Foi um caso extraconjugal que derrubou o todo-poderoso da CIA e quase herói nacional David Petraeus.
Desde quando estourou o mais recente escândalo da República, todos os jornalistas que cobrem política e toda Brasília sabiam que Rosemary Nóvoa Noronha tinha sido — se ainda é, não sei — amante de Lula. Assim define a palavra o Dicionário Houaiss: “Amante é a pessoa que tem com outra relações sexuais mais ou menos estáveis, mas não formalizadas pelo casamento; amásio, amásia”.
Embora a relação fosse conhecida, a imprensa brasileira se manteve longe do caso. Quando, no entanto, fica evidente que a pessoa em questão se imiscui em assuntos da República em razão dessa proximidade e está envolvida com a nomeação de um diretor de uma agência reguladora apontado pela PF como chefe de quadrilha, aí o assunto deixa de ser “pessoal” para se tornar uma questão de interesse público.
O caso, com todos os seus lances patéticos e sórdidos, evidencia a gigantesca dificuldade que Lula sempre teve e tem de distinguir as questões pessoais das de Estado. Como se considera uma espécie de demiurgo, de ungido, de super-homem, não reconhece como legítimos os limites da ética, do decoro e das leis. (...) 
Ainda segundo o texto do Reinaldo, o jornal responsável pela notícia é a Folha de São Paulo que, ao questionar o porta-voz do Instituto Lula, José Chrispiniano, ouviu dele a afirmação de que "o ex-presidente Lula não faria comentários sobre assuntos particulares".
Fiquei ali uns cinco minutos, olhando aquilo, meu café esquecido, esfriando no canto da escrivaninha. A notícia era inacreditável. Quer dizer, se analisado à luz fria dos fatos, fazia todo sentido. A nomeação da moça, seu poder quase rasputiniano, seu trânsito com o "PR" (Presidente), sua preocupação com plásticas e coisas afins, as viagens sem justificativa aparente, seu poder junto ao chefe e sua sede de aproveitar ao máximo esse poder. Até mesmo a repentina viagem de Lula à Europa, logo que eclodiu o escândalo do tráfico de influência da "Rose". O prudente distanciamento de Dilma, acoplada à intensa movimentação nos bastidores para evitar, a qualquer custo, que a dita-cuja seja interrogada por parlamentares da oposição. Tudo se encaixava, tudo começava a fazer sentido. Mas... até NESSE tipo de escândalo, o Imperador de Garanhuns se mete? Tem foto rodando a internet, com o abraço carinhoso dos três protagonistas desse triângulo: Lula, Rose e Marisa Letícia! Cara de pau, o Coronel Jesuíno do Planalto, não?
Ok, ok.... vamos com cautela. Vai que o Reinaldo perdeu o juízo... Para buscar a contrapartida, vou ao blog sujinho mais popular da esgotosfera petista: o Brasil 247. Ela certamente deve estar esbravejando por conta de tal injúria contra seu ídolo máximo. Hummm... não. O blog a serviço do lulopetismo não desmente nada. Pelo tom das manchetes espalhafatosas que estampa na abertura, pelo contrário: praticamente confirma a notícia da Folha, com a ressalva podre de que "FHC fez o mesmo, e não deu nem escândalo, pois foi tudo abafado pelo "PIG" (a maneira  estranha pela qual a imprensa a serviço do governo se refere a qualquer tipo de imprensa que não lamba as botas do petismo). 
O mais impressionante é que, segundo a Folha, esse fato já era rumor corriqueiro em Brasília há mais de uma década - e nunca ganhou repercussão! E isso num país onde até a sexualidade de figurinhas carimbadas da TV vira hit da internet!

Muito bem.... Antes de fazer qualquer análise do caso, e preciso apurar sua veracidade. Pelo que se vê na internet, é "pedra 90", ou seja, verdadeira. Isso posto, é preciso separar as coisas. A vida sexual de Luiz Inácio Lula da Silva, é da minha conta? Óbvio que não, assim como a minha não é da conta de ninguém. Afinal de contas, ter amantes é corriqueiro em nossa sociedade. Há centenas de anedotas a respeito, e poucas condenam a atividade "por fora" do casamento, desde que executada pelo marido. Chamar um homem de "galinha" no Brasil, sequer chega a ser um xingamento, mas no máximo uma leve repreensão, muitas vezes eivada de inveja. Claro que no caso da mulher infiel, a coisa muda de figura. Chamar de "galinha" é ofensa mortal.  É uma grande injustiça, fruto do machismo que ainda permeia a nossa sociedade. Mas eu é que não me meto a querer corrigir o mundo na sua visão machista da traição, não. Quem tem chifres que os ajeite como melhor lhe aprouver. E não será a primeira vez em que um chefe de Estado dá suas puladas de cerca, nem será a última. Muito antes de Dom Pedro I conceder o título de Marquesa à bela Domitilia, a corte era célebre por seus casos extraconjugais. Boa parte dos presidentes brasileiros tinham lá suas "peguetes" (para usar um termo mais atual). Na cultura latina, isso nem era considerado pecado grave. E segue sendo tolerado com bom humor. Estamos muito mais para os italianos que morrem de inveja de Silvio Berlusconi e suas festas "bunga-bunga", do que para o falso puritanismo americano que por pouco não causou o impeachment de Bill Clinton por suas aventuras sexuais com uma estagiária da Casa Branca. O caso do ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, um voraz reprodutor extraconjugal, nunca causou espécie entre seus admiradores, mesmo ele tendo sido padre durante o período em que "pegava geral". Para a idiotia latino-americana, a promiscuidade (masculina, é certo) é quase um sinônimo de "macheza", desejável, portanto. Lula, ao ter uma amante, provavelmente não teria grande desgaste em sua imagem, tradicionalmente revestida de teflon contra escândalos de toda ordem. O fanatismo pró-Lula é tão arraigado, que esse seria considerado um "mal menor" e que, de mais a mais, nem é crime coisa nenhuma. No caso dele seria apenas mais uma faceta do folclore lulista, assim como seu hábito de tomar uns goles além da conta da "mardita pinga", e de abominar certos hábitos típicos de pessoas ditas civilizadas, como a leitura. De fato, os comentários dos leitores do "247" estavam, de modo geral, todos alinhados com esse pensamento: Lula é "o cara", além de "ter salvo o Brasil", é "pegador". Sabem como é, aos idiotas tudo é permitido.
Sabe-se que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve um caso extraconjugal, com uma jornalista da Globo. Ela teve um filho, que foi reconhecido por FHC como filho da união dos dois. Anos depois, provou-se que o filho não era de FHC, o que não muda absolutamente nada no fato de que houve um caso fora do casamento. Os blogs a serviço do lulopetismo estão explorando esse fato à exaustão, tentando traçar um paralelo entre os dois casos, de modo a "aliviar a barra" de Lula. À primeira vista, seria isso mesmo: dois presidentes, dois casos, nada de novo no front. Cada um que faça seu julgamento pessoal sobre esse tipo de comportamento. Creio que poucos farão uma censura rigorosa, talvez lembrando daquela frase de Jesus Cristo: "Atire a primeira pedra, quem nunca errou..."  Na mente nos lulistas, são casos análogos, e se um foi esquecido pela grande imprensa, o outro merece o mesmo destino.

Eu discordo disso - e mostro por quê.

Ter uma amante é "assunto particular", sem dúvida. Mas espetar a conta da manutenção da amante na viúva (leia-se: erário, o seu, o meu, o nosso dinheiro), já extrapola a seara do "particular" para chafurdar naquilo que o petismo tem de característico: a transformação da vida pública na privada (pode-se entender como quiser). A pornográfica e obscena mescla de dinheiro público com o desejo particular. A suruba entre assuntos de alcova e assuntos de Estado. Estou me lixando para o fato do ex-presidente Lula ter amante, seja uma, sejam dez.  Em algumas partes do mundo, a poligamia masculina é tradição milenar. No Irã islâmico do amiguinho de Lula, o nuclear Ahmadinejad, a poligamia é cultural (sempre masculina, se uma mulher seguir esse rumo acabará morta a pedradas, sob aplausos da turba enfurecida). Mas mesmo no Islã, o número de esposas é limitado pelo poder aquisitivo - e não vale incorporar as reservas monetárias do país na conta! No Brasil, é assunto estritamente particular. Mas no preciso instante em que Lula arruma um empreguinho camarada, regiamente remunerado, para a concubina, ele sai do "particular" e vai para o lodaçal do escândalo. Não se tem notícia de que FHC, ou qualquer outro mandatário, tenha tido tamanho escárnio para com a coisa pública. E assim sendo, o papelão moral que o ex-presidente protagoniza deixa de ser um assunto "particular", para virar notícia, com todos seus desdobramentos. No caso em questão, mais do que uma troca de favores, um ninho de roubalheira que a cada dia nos brinda com novidades. Não é caso amoroso, é caso de polícia. A "teúda" não se contentou em receber seus generosos proventos da administração pública. Resolveu diversificar as atividades, e, seguindo o modelito tão em voga nas hostes do petismo, prestar "consultoria" para fora. Emplacou os irmãos Vieira em duas Agências reguladores diretamente ligadas a interesses de pessoas que buscavam favores intermediados por ela. Arrumou, através de outra indicação sussurrada ao ouvido do "PR", uma boquinha para a filha na ANAC. Até para o ex-marido, ela deu um jeitinho de dar uma forcinha, arrumando um diploma fajuto para que ele pudesse conseguir um emprego na seguradora do Banco do Brasil. Em outras palavras, ela cuidou da família toda. Lula se declarou "esfaqueado pelas costas" com o episódio. Esfaqueado por quem? Pela amante? Tenho minhas dúvidas. A mulher já perdeu o emprego, a filha foi demitida, o ex foi demitido, ela está indiciada em processo na Polícia Federal. Fico aqui imaginando o estado de espírito de Rosemary, ao ver que seu "Coronel", ou, na expressão em inglês, "sugar daddy", pegou um vôo para a Europa para deixar o caso esfriar, e a deixou nas mãos "competentes" de Marcio Thomaz Bastos e equipe. Como ficarão as contas que vencem no final do mês? O condomínio da cobertura? Será que alguma alma caridosa vai pagar? Ou será que Lula vai repetir seu comportamento habitual, e deixá-la arder no mármore do inferno, declarar que foi vítima" e que "não sabia de nada"? Um expediente perigoso, para dizer o mínimo. No lugar da Rose, eu pediria garantias de vida à polícia, e faria um bom acordo de delação premiada com o Ministério Público. Imaginem o que pode estar trancado a sete chaves na cabeça da mulher?

Quanto a Lula, ele pode inventar os subterfúgios que quiser. É impressionante a capacidade quase inesgotável que esse cidadão possui, se se esmerar na produção de escândalos. Quando a gente pensa que já viu tudo, que estão esgotadas as alternativas para mais uma "cagada", lá vem ele com um balaio cheio de dejetos para emporcalhar a sua biografia. Até hoje, o revestimento de "teflon" que auferiu, ao longo de décadas de enganação e oito anos de mandato nos quais o clientelismo e a demagogia foram a tônica, resistiu a tudo. Um escândalo como o Mensalão mandaria a popularidade de qualquer um para o fundo do poço. Lula surfou no escândalo, pintou e bordou, e saiu com a maior cara lavada. É possível que saia de mais esta. Mas nada é certo. O povo tende a perdoar o fato de ter uma "teúda". Mas que ela seja "manteúda" com o dinheiro do contribuinte, é ir um pouco longe demais. Os que trabalham com o humor estão em polvorosa, com a mais nova safra de inspiração para suas charges. É bem capaz de Lula resistir a denúncias de toda espécie. Mas resistir ao humor implacável lhe será mais difícil. Agora, entre dezenas de epítetos nada elogiosos que ele recebe da oposição, somará mais um - o de pândego.